Nunca consegui mentir para a minha mãe.
Não estou falando de omitir, que é bem diferente, mas de faltar com a verdade, naquela hora do olho no olho. Ela sempre dizia: "seus olhos não mentem, e eu sei ler direitinho o que está escrito neles". É claro que eu odiava essa falta de "privacidade", mas hoje sinto falta de ter alguém que me conheça tão bem, só pelo meu olhar...
O segredo dos seus olhos, película argentina que ganhou o oscar de melhor filme estrangeiro utiliza, de maneira sublime, as janelas da alma, como pano de fundo para um roteiro primoroso. Mas, mais fantástico que o enredo é sair do cinema sem saber qual é a moral da história. Ou melhor, sabendo que elas são muitas, porque esse é um filme que toca em várias feridas, mais ou menos doloridas, de acordo com o freguês.
A trama é bem simples: o oficial de justiça recém aposentado Benjamín Espósito (o sensacional Ricardo Darín, de O filho da noiva) começa a escrever um romance policial sobre um caso que ele mesmo investigou em 1974. Entre idas e vindas no tempo, descobrimos como um crime pode ser elucidado pela observação atenta a um simples olhar. Ao revisitar o passado pelas palavras e pela memória, Benjamin questiona, além dos detalhes do crime, a forma como conduziu sua vida até então.
A mistura de temas tão complexos, que poderia resultar em um desastre completo, aqui, funciona muito bem: pitadas sutis de comédia e romance permeiam questões profundas como violência, obsessão, insatisfação pessoal e vaidade, culminando com uma apoteose digna de Hitchcock.
Para ver, rever e aplaudir de pé.
segunda-feira, 26 de abril de 2010
terça-feira, 20 de abril de 2010
Sobre a primeira grande desilusão...
" Um dia, contava meu tio, eu saí atrás de meus irmãozinhos, Aurélio e Ernesto, teu pai, terrível como você, me disse, rindo. Eles tinham sumido, escapado da minha vigilância. Onde diabos eles teriam ido se meter? Procurava os dois, na maior aflição, já tinha vasculhado todos os cantos do navio quando lembrei de entrar no depósito de bagagens. Sabem quem eu encontrei lá? Meu pai. O nonno estava sentado em cima de um baú, ali escondido, chorando. Não cheguei perto, fiquei calado, só olhando. Ele não me viu porque estava com as mãos no rosto. Eu nunca pensei que pudesse ver um dia uma coisa daquelas: meu pai, um homem tão forte, tão corajoso, chorando. Nunca imaginei que meu pai soubesse chorar... Confesso que fiquei triste, desapontado, ao ver meu pai soluçando daquele jeito."
segunda-feira, 19 de abril de 2010
Sobre o que fazer quando morrer...
"Mas Colette perguntava, em pânico por um momento, atirada em descrença: e se eu morrer? Al, que devo fazer se morrer?
Al respondia: mantenha a cabeça no lugar. Não chore. Não fale com ninguém. Não coma nada. Repita sem parar o seu nome. Feche os olhos e procure a luz. Se alguém disse: siga-me, peça para se identificar. Quando vir a luz, caminhe em direção a ela. Mantenha a bolsa grudada ao corpo, onde antes havia corpo. Não abra a bolsa, e lembre que a última coisa que deve fazer é puxar um mapa, por mais perdida que se sinta. Se alguém lhe pedir dinheiro, ignore, passe reto. É só continuar andando para a luz. Não olhe ninguém nos olhos. Não deixe ninguém deter você."
sábado, 17 de abril de 2010
quarta-feira, 14 de abril de 2010
Equilibrista
Você tem de ser equilibrista até o fim da vida. E suando muito, apertando o cabo da sombrinha aberta, com medo de cair, olhando a distância do arame já percorrido e do arame a percorrer — e sempre tendo de exibir para o público um falso sorriso de calma e facilidade. Tem de fazer isso todos os dias, para os outros como se na vida não tivesse feito outra coisa, para você como se fosse sempre a primeira vez, e a mais perigosa. Do contrário seu número será um fracasso.
De Fernando Sabino para Clarice Lispector. Ou será que foi para mim?
De Fernando Sabino para Clarice Lispector. Ou será que foi para mim?
terça-feira, 13 de abril de 2010
O Beijo
Dizem que o pintor austríaco Gustav Klimt (1862-1918) foi quem melhor inseriu a beleza feminina no meio artístico. No quadro O Beijo (1907-08), o pintor retrata o ardor da paixão, em um estilo radical para a época; tanto que foi incompreendido até por seus colegas pintores.
Na obra, o pintor retrata a si mesmo e a sua amante Emilie. Dizem os entendidos que, com um olhar atento ao quadro, vê-se que a mulher, ao ser beijada, tem sua alma aprisionada voluntariamente ao corpo do homem, e que a obra é uma expressão sublime do erotismo e do desespero.
O Beijo faz parte do acervo da Österreichische Galery de Viena. Está aí uma obra para se apaixonar!
Beijo, kiss, beso, kissu, küchen, baiser, tzub, pitér, xkyss, potselui, neshiká
domingo, 11 de abril de 2010
A visão de Drumond sobre as moças de Belo Horizonte
Belo Horizontinas no Bar do Ponto em 1935
A última edição do Jornal da Pampulha traz uma crônica de Carlos Drumond de Andrade elogiando o charme intelectualizado das nossas ancestrais.
Na crônica "Entre o baton e os livros" ele confessa seu encantamento pelo que chamou de intelectualização das jovens que viviam na capital mineira na década de 1930. Segundo ele, nossas avós, moças da Belo Horizonte daquela época, não se adaptaram ao "modelo melancólico das inglesas, de um ser desgracioso, agido e medular, decorado com um par de óculos cintilantes e botinas intermináveis, com um vestido horroroso no meio", e continuavam bonitas, adoráveis e de bem com a vida.
"Confesso que fico um tanto comovido quando, ao pegar meu bonde das 11 horas, vejo no banco da frente a moça que lê André Mourois - `Les Mondes Imaginaires Gracssete, 25iéne Édition` - e no banco de trás a moça que assina a Litteray Digest (notem que não é Ardel nem a `Revista da Semana`), ambas perfeitamente normais e intergradas ao quadro cotidiano", escreveu Drumond. E isso, de acordo com o cronista, não era mais uma exceção na cidade, onde ele notava que "toda novidade bibliográfica francesa, inglesa, espanhola, etc, encontrava leitoras bonitas."
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