sábado, 10 de abril de 2010

Vila Morada

Hoje fiz uma descoberta fantástica que deveu-se, exclusivamente, a uma pequena mudança no caminho que sempre faço a pé entre o escritório e minha casa. Passando pela rua Rio Grande do Norte, ao lado do meu inferninho preferido (A Obra), o que significa que já passei inúmeras vezes por lá sem notar, avistei um corredorzinho comprido, cheio de plantas no fundo. Resolví dar uma espiadinha e me deparei com uma vilinha bucólica, cheia de casinhas coloridas - a Vila Morada.

Trata-se de uma vila de 1972, localizada no coração da Savassi. São 15 casas, entre residências e ateliês, dispostas ao longo de um corredor, onde gatos passeiam distraidamente, e pássaros cantam nos galhos das plantas, lembrando as belas cidades históricas de Minas.

A maior parte das casas é habitada por artistas, entre pintores, designers de moda, ceramistas, chefs de cozinha, dentre outros. Em um dos ateliês conheci a Cleo, um encanto de menina, que produz peças de roupa exclusivíssimas. Para quem quiser conhecer, o endereço do blog dela é ateliedemoda.blogspot.com

Andando um pouquinho mais, conheci a Lilly que faz lindas gravuras e depois de 5 minutos de conversa já me convidou para uma cervejinha em uma mesinha na porta da sua casa. Claro que aceitei, né?

É óbvio que eu decidí, na mesma hora, que queria me mudar para lá, imediatamente. Mas, infelizmente, a Lilly me contou que existe uma lista de espera de 193 pessoas interessadas e que ela esperou 6 anos para conseguir alugar o seu cantinho... : (

Para quem quiser conhecer, o endereço é Rua Rio Grande do Norte, 1146 na Savassi.

A entrada


O mosaico no piso já sinaliza a bela surpresa


Uma cidadezinha do interior inscrustada no coração da Savassi. Detalhe: esse grande prédio ao fundo é onde funciona o escritório da Leite Integral


A entrada do ateliê da Cleo


A casa da Lilly


Minha futura casa... ? quem sabe?

quarta-feira, 7 de abril de 2010



"Não sei se quero descansar por estar realmente cansada ou se quero descansar para desistir." (Clarice Lispector)

segunda-feira, 5 de abril de 2010

Sobre as perguntas sem resposta


"Eu não consegui, ou não quis, adormecer tão cedo. Liguei o meu walkman e fiquei a ouvir um lado inteiro de um disco do Bob Dylan. Adormeci com ele a pergurtar-me ao ouvido: How many roads must a man walk down/ Before you call him a man?/ Yes, and how many seas must a white dove sail/ Before she sleeps in the sand? E, mesmo antes de fechar de vez os olhos e cair na inconsciência, respondi-lhe: I don´t know the answer, my friend..."

domingo, 4 de abril de 2010

Sobre o anonimato da dor


"...Neste lugar, a que chamam Gólgota, muitos são os que tiveram o mesmo destino fatal e outros muitos virão a ter, mas este homem, nu, cravado de pés e mãos numa cruz, filho de José e Maria, Jesus de seu nome, é o único a quem o futuro concederá a honra da maiúscula inicial, os mais nunca passarão de crucificados menores. É ele, finalmente, este para quem apenas olham José de Arimateia e Maria Madalena, este que faz chorar o sol e a lua, este que ainda agora louvou o Bom Ladrão e desprezou o Mau, por não compreender que não há nenhum diferença entre um e outro, ou, se diferença há, não é essa, pois o Bem e o Mal não existem em si mesmos, cada um deles é somente a ausência do outro. Tem por cima da cabeça, resplandecente de mil raios, mais do que, juntos o sol e a lua, um cartaz escrito em romanas letras que o proclamam Rei dos Judes, e, cingindo-a, uma dolorosa coroa de espinhos, como a levam, e não sabem, mesmo quando não sangram para fora do corpo, aqueles homens a quem não se permite que sejam reis em suas próprias pessoas..."

sábado, 3 de abril de 2010

Sobre a igreja, seus milagres, e os mistérios da fé


"...Não sei nada dessas teses, ou lá o que sejas, Nem precisa de saber, basta que tenhas fé, Fé em Deus, ou no meu elefante, perguntou o cornaca, Em ambos, respondeu o padre, E quanto vou eu ganhar com isto, À igreja não se pede, dá-se, Nesse caso, vossa paternidade deveria falar antes com o elefante, visto que dele dependerá o bom resultado da operação milagrosa, Tens uma língua descarada, tem cuidado, não a percas, Que é que me acontece se eu levar o elefante à porta da basílica e ele não se ajoelhar, Nada, a não ser que suspeitemos que a culpa seja tua, E se assim fosse, Terias fortes motivos para te arrependeres..."

Sobre o crescei e multiplicai-vos...


" A eva e adão ainda restava a possibilidade de gerarem um filho para compensar a perda do assassinado, mas bem triste há-de-ser a gente sem outra finalidade na vida que a de fazer filhos sem saber porquê nem pra quê. Para continuar a espécie, dizem aqueles que acreditam num objectivo final, numa razão última, embora não tenham nenhuma idéia sobre quais sejam e que nunca se perguntaram em nome de quê terá a espécie de continuar como se fosse ela a única e derradeira esperança do universo. Ao matar abel por não poder matar o senhor, caim já deu sua resposta."

quinta-feira, 1 de abril de 2010

A planta

"Num dado momento penso que num canto de mim nascerá uma planta. Começo a rondá-la, achando que nesse canto se produziu alguma coisa rara, mas que poderia ter futuro. Eu estaria feliz se essa idéia não fracassasse de todo. Contudo, devo esperar por um tempo ignorado: não sei como fazer a planta germinar, nem como favorecer seu crescimento, nem como cuidar dela; só pressinto ou desejo que tenha folhas de poesia; ou algo que se transforme em poesia se certos olhos olharem para ela. Devo tomar cuidado para que não ocupe espaço demais, para que não pretenda ser bela ou intensa, mas que seja a planta que ela mesma está destinada a ser, e que eu possa ajudá-la a sê-lo. Ao mesmo tempo, ela crescerá de acordo com um observador que não se importará muito em querer lhe sugerir intenções ou grandezas demais. Se for uma planta dona de si mesma, terá uma poesia natural, desconhecida para si própria. Ela deve ser como uma pessoa que não sabe quanto vai viver, mas que tem necessidades próprias, com um orgulho discreto, um pouco desajeitada, e que pareça improvisada. Ela não conhecerá suas próprias leis, embora as tenha no mais fundo e a consciência não as possa alcançar. Não saberá o grau e a maneira como a consciência intervirá, mas em última instância imporá sua vontade. E ensinará a consciência a ser desinteressada."


Felisberto Hernández. O cavalo perdido e outras histórias.