segunda-feira, 23 de novembro de 2009

Arca de Noé do G8



Sobre o filme "2012"


2012 Retardados

Luiz Felipe Pondé (Folha de SP)

O filme "2012", de Roland Emmerich, é um lixo da geração Obama.


Filmes-catástrofe são fracos, servem para tardes chuvosas de domingo, recheados com cama, chuva e preguiça, ao lado de alguém com quem você gosta de ficar na cama abraçado. Além, é claro, do fato de que o ano "fatídico" 2012 é uma maldição do povo maia, essa "grande civilização" que fazia sacrifícios humanos.

Além dos clichês mais banais de filmes-catástrofe (cientistas bonzinhos, autoridades malvadas, presidentes americanos solidários, famílias despedaçadas que se reúnem em meio ao caos, vinganças da deusa natureza contra o dinheiro -aquele mesmo que todo mundo quer no bolso), "2012" acrescenta a palhaçada do politicamente correto. Isso sim é o fim do mundo.

Leitores me perguntam por que essa palhaçada me irrita tanto. Respondo: porque é coisa de retardado.

Nós não vamos morrer todos afogados em grandes ondas do mar, nem em labaredas vulcânicas, nem com a gripe da porca (H1N1). Nosso espírito sim vai sufocar sob a bota do fascismo retardado do politicamente correto.

Sempre temo que, sem Clint Eastwood, o cinema dos Estados Unidos afunde na "catatonia do bem" retardado.

Como essa "catatonia do bem" piora o já terrível "2012" (cheio de interpretações sofríveis, salvo o "profeta" Woody Harrelson, roteiro sem pé nem cabeça, soluções ridículas para os personagens)?

Antes de tudo, vale salientar que a temática apocalíptica tem seu peso no imaginário. A ideia do fim do mundo espreme os seres humanos contra a força de questões essenciais como "o que fizemos com nossas vidas?", "como chegamos a essa situação?", "como perdemos tanto tempo com bobagens?".

É aí que o retardamento mental do politicamente correto estraga tudo: ele responde as questões de uma forma mais infantil do que cartinhas de crianças para o Papai Noel. E a força do drama humano se dissolve no ácido da estupidez.

É claro que o cientista bonzinho é um anjo negro. Não o anjo negro do Nelson Rodrigues, que tem as vísceras de quem de fato sofre e de quem padece da maldição de ser homem, mas o anjo negro da geração Obama, cujos intestinos digerem não o bolo alimentar, mas as flores e as virtudes santas.

Ao contrário dos cientistas reais que correm atrás de dinheiro para pagar suas pesquisas e fazem qualquer negócio pra consegui-lo (com razão), esse se preocupa apenas com os pobres, claro, apenas os pobres dos países do G8.

O presidente, outro anjo negro, morre procurando o pai perdido de uma criancinha chorona. Sua filha (diga-se de passagem, uma deusa africana), só se preocupa com a salvação da arte universal.

A namoradinha do magnata russo canalha, que o trai com seu piloto particular (mas tudo bem...), em meio à destruição do mundo, confessa a outra mulher santinha: "Foi meu namorado quem me obrigou a pôr silicone, eu não queria". Mentira: qualquer pessoa não retardada sabe que as mulheres colocam silicone para que as outras invejem seus seios e para seduzir os homens, e não porque seus namorados as obrigam.

Evidentemente que os namorados usufruem, graças a Deus, e elas ficam mais bonitas e felizes.

O único "bad guy" (bandido) é um gordo branco preocupado com dinheiro, como todos nós. Mas claro que, no novo mundo dos retardados do bem, ninguém quer dinheiro, por isso a pérola que o anjo negro da ciência do bem diz: "Não devemos começar um mundo novo assim".

O mundo acaba. Os continentes afundam, menos a África, que, em vez de afundar, se ergue. Ora bolas, a África é o berço da humanidade, até faz sentido. Mas o mais importante é que, na geopolítica dos retardados, a África é o continente onde todo mundo é legal e vítima dos malvados brancos.

E aí vem o pior. Imagine um "loser" (fracassado), um escritor falido que ganha a vida sendo motorista de limusine. Agora imagine que ele ainda ama sua ex-esposa (a outra mulher santinha que citei acima). Imagine que essa ex-esposa o trocou por um médico bem-sucedido! Agora adicione o fato de que seu filho o despreza e adora o novo marido médico bem-sucedido da sua mãe. Depois imagine que, em meio ao fim do mundo, esse filho pentelho diz para o pai "loser": "Você deveria dar uma chance ao Gordon [nome do marido médico de sua mãe], ele é bem legal". E aí o infeliz marido trocado responde: "Eu vou tentar, meu filho".

No dia que um homem, nessa situação, concordar com um papo furado desse, de um filho pentelho, aí, sim, o mundo acabou.

domingo, 22 de novembro de 2009

Caim



Para quem achava que O Evangelho Segundo Jesus Cristo era a apoteose do ateísmo de Saramago, Caim é uma grande e boa surpresa.
Com o humor refinado e questionador, que é marca da sua obra, Saramago faz uma "releitura" do Velho Testamento, desde os Jardins do Éden até a Arca de Noé.
Caim, após matar seu irmão Abel, faz um trato com Deus e parte para uma aventura no tempo, recontando  várias passagens bíblicas como o quase-sacrifício de Isaac, a construção da Torre de Babel, a destruição de Sodoma e Gomorra e o Grande Dilúvio. Em todas essas passagens Caim desenvolve uma revolta contra a  "tirania" divina. Assim, quando convidado a embarcar na Arca de Noé para "ajudar" na reconstrução da humanidade, ele trava a mais terrível das guerras entre Criatura e Criador.

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

O que gostaria de dizer para algumas pessoas...




CADEIRA DE BALANÇO NO LUGAR DO DIVÃ
Fabrício Carpinejar



Certos amigos e amigas já usaram esse recurso cênico para explicar uma carência ou pontuar uma tristeza ancestral:


- É que não fui amamentado quando nasci.

Não suporto manha de mercado, muito menos crise infantil na meia-idade. Minha vontade é buscar um litro de leite e derramar num prato de sopa.

- Toma, toma até o fim!

Criança gosta de drama, adulto gosta de transformar o drama em trauma. É sempre uma desculpa lá atrás para fundamentar uma preguiça e esclarecer um vício.

As sutilezas, os detalhes, a normalidade, a rotina são esquecidos. Buscamos somente o estilete no estojo de madeira de nossa infância. Aquilo que corta. Deixamos os lápis coloridos sem nenhum uso. E olha que estavam apontados na última vez que os vi, em novembro de 1984. Psicologizamos em demasiado a memória, a ponto de somente lembrar o que tem impacto. Nossas dores nos tornam reacionários. O verdadeiro revolucionário é o que ultrapassa sua dor e mexe na alegria.

Tanto que não entendo como os terapeutas continuam usando o mesmo mobiliário de Freud: o divã, o abajur, a escrivaninha, a estante com livros. Igualzinho ao escritório do médico austríaco do princípio do século passado. Não há um decorador na psicologia?

Velho por velho, por que não colocar uma cadeira de balanço?

Não troco a cadeira de balanço pelo divã. Com o ritmo e o balanço, falarei bem mais do que deitado.

Cadeira de balanço é feita para amamentação. Minha mãe me acolheu em seu trançado de vime. Guardo até hoje em minha casa. Serviu aos meus filhos, servirá aos meus netos. Adequada para cólicas e para os choros. Deveria ser enquadrada como um brinquedo, constar na praça ao lado do gira-gira e do escorregador. Tem um andamento precioso de charrete. Criança não dorme mais fácil no carro? Cadeira de balanço é movimento enternecido, um pedalinho dos ventos.

Mas voltando ao início: o que me irrita na lamúria de quem não foi amamentado é que ninguém evoca a mãe.

A mãe é apagada dos problemas. Desculpa, a mãe torna-se o problema. É ela é que não amamentou. Parece que fez de propósito, careceu de vontade, de ânimo, de persistência.

Nas campanhas de saúde e prevenção, escuta-se a obrigatoriedade de dar o leite para seu filho.

É claro que toda mãe quer. Algumas não podem.

E quem pensa nelas? São menos mães?

A maternidade sofre nos meses iniciais em seguida ao parto. Recebe nas costas uma pressão social maior do que o casamento e o baile de debutantes juntos. Depois de superar a apreensão se a criança nascerá bem, arca com a ansiedade do primeiro aleitamento. Subirá leite? Terá condições de alimentar o bebê? Ela é normal?

Ao fracassar, é como se a criança a recusasse. Uma frustração seca. Sem raízes.

Na falta de leite materno, ofereça o colo para sua mãe. É ela que precisa.

domingo, 15 de novembro de 2009

O que fica da tempestade...

PRATINHO DO VASO
Fabrício Carpinejar



Fui numa floricultura comprar pratinhos de vasos.
Três pratos. De diferentes cores, de azulejo e barro.
O vendedor me considerou excêntrico pela modéstia do apelo. Procurou enfiar orquídeas olheira abaixo, dispensei os arranjos coloridos. Como uma abelha que não larga a lâmpada pela obsessão do sol. Logo me dispensou para o caixa, viu de cara que não tinha potencial aquisitivo. Ele apressou a interrogação do "só isso" e logo fechou a encomenda.
Estamos tão consumistas que nos desculpamos por comprar pouco (ou nada). Imagina o atendente perder tempo com a gente? Gentileza hoje é comissão. Idêntica culpa diante do motorista de táxi com a corrida curta. Quase suplicamos por favor, se ele pode nos levar. Não há mais pobreza genuína no mundo, unicamente pobreza disfarçada. O cartão de crédito fantasiou a miséria.
Não receio pedir pouco. O pouco é que me basta. O pouquíssimo transborda.
Eu me sinto essencial lembrando do desnecessário. Ouvindo o suspiro dentro do vento.
Ninguém dá valor ao pratinho das plantas que racha na mudança de lugar e não é reparado, muito menos reposto. Eu não vivo sem eles. É como faltar talheres para um membro da família.
É o pratinho de vaso que me mantém acordado. Deslumbrado pela sua fugacidade. Porque amanhã terei que me lembrar novamente. E depois da amanhã. E sempre.
O amor é o que não lembramos para continuar lembrando. Como pedir ao filho escovar os dentes ou insistir que faça os temas. Todo dia será exaustivamente igual: é uma atenção renovada, não exclusiva. Uma dedicação nula. Uma devoção secreta que não traz fama e reconhecimento. Coisas simples que não podem ser contadas ou glorificadas durante a semana. Que são apagadas no mesmo momento do ato. Não irei ao bar proclamar aos colegas de que dobrei as calças antes de sair e organizei as camisas pela antiguidade.
É o que me põe apaixonado numa mulher: o pratinho do vaso. O que é sem graça, o que somente protege, mas que é confidente das raízes. O quanto ela é capaz de estar ao seu lado sem que necessite imortalidade. O quanto me torno observador das inutilidades. Falei inutilidades, pois é, não errei a digitação, quem ama conserva as inutilidades. Os interesseiros e ambiciosos guardarão as informações essenciais como nascimento e medidas. Veja se um homem a quer quando se interessa porque aquilo que não gera interesse. O fútil é o fundamental. No momento em que o desejo não descobre o que é importante e preserva tudo.
O pratinho do vaso do relacionamento está em saber o xampu que ela usa, o restaurante preferido, o doce da infância, sua mania de comer aipim com mel, o azeite (não é qualquer um), as perguntas que detesta ouvir, como ela gosta de amassar o travesseiro, de que modo escolhe as roupas: se nua ou já com a lingerie, quais os insetos que tem medo, o que não pode deixar de assistir na tevê, o drinque preferido, os amigos da choradeira, os amigos do riso, o que toma no café da manhã, qual a fruteira de sua confiança.

O pratinho do vaso é o que fica da tempestade. Não tinha como explicar ao vendedor. Ele é que conhece as flores.

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Dos livros que eu li...


Mulher Lendo - Van Gogh

Breve resenha das minhas últimas leituras.

O Livro do Sal (Monique Truong) - Para ser devorado. Um livro delicioso, elegante e sensual. A cozinha serve de pano de fundo para as revelações fascinantes das lendárias Gertrude Stein e Alice B.Toklas, e de seu cozinheiro Bìhn que, durante cinco anos preparou aromáticos repastos para a Geração Perdida na Paris do final da década de 20.

A Peste (Albert Camus) - A cidade assolada pela peste bubônica faz lembrar a infecção do Nazismo. O indivíduo descobre, por meio do desespero, a necessidade absoluta do coletivo na luta contra a vida e a morte. Um clássico imprescindível.

Fantasma Sai de Cena (Philip Roth) -A velhice tratada com realismo impressionante em suas múltiplas facetas - a solidão, as doenças limitantes, os desejos frustrados, a morte. Faz pensar no inevitável futuro.

A Quarentena (Le Clézio) - Uma fábula sobre a potência do amor. Um navio é posto em quarentena em uma ilhota próxima a Maurício em função da contaminação de um dos passageiros por uma epidemia de varíola. Os passageiros Europeus se vêem obrigados ao convívio com escravos indianos, ficando entregues à própria sorte. Em meio à doença, ao medo e à revolta surge um amor lendário.

Peixe Dourado (Le Clézio) - "Oh, peixe, peixinho dourado, cuide bem de si! Porque são tantas as armadilhas, tantas as redes aramadas para você neste mundo..." Fala das aventuras e desventuras de uma menina raptada aos seis anos de idade e vendida para uma velha senhora na África do Norte. Com a morte de sua dona, inicia-se sua vida errante, permeada de agressões, abandono, aprisionamento até o retorno ao ponto de partida, a volta às origens.

O Perfume (Patrick Süskind)- Tanto o livro quanto o filme são motivo de severas críticas. Eu amei ambos! Uma metáfora fantástica da busca da perfeição, do poder e do amor. Fala da busca de Grenouille, dotado de uma imensa sensibilidade olfativa, pela essência perfeita, do perfume que o tornaria um homem completo e amado. Para isso, ele extrai, tal qual um perfumista, a essência do corpo de várias mulheres. Adorei particularmente o tão mal falado final que é a expressão dos desejos mais íntimos e intensos das pessoas.

Equador (Miguel Sousa Tavares) - Fala do português Luís Bernardo que, no início do século XX,  troca a sua vida boêmia em Lisboa por uma missão patriótica na colônia de São Tomé - uma experiência que muda seu destino para sempre. Minha única crítica é quanto ao final, muito óbvio.

terça-feira, 10 de novembro de 2009

sábado, 7 de novembro de 2009

Leitura inspiradora em tempos de H1N1

A Peste (Albert Camus)


“Irmãos, caístes em desgraça, irmãos, vós o merecestes”!
Com essas palavras o Padre Paneloux enche de pânico a assembléia já tão flagelada.
E continuou, num tom mais veemente: “Se hoje a peste vos olha, é porque chegou o momento de refletir. Os justos não podem temê-la, mas os maus têm razão para tremer. Por longo tempo, este mundo compactuou com o mal, repousou na misericórdia divina. Bastava arrepender-se, tudo era permitido. E para se arrependerem, todos se sentiam fortes. Chegado o momento, o arrependimento viria por certo. Até lá, o mais fácil era deixar-se levar; a misericórdia divina faria o resto. Pois bem! Isto não podia durar. Deus, que durante tanto tempo baixou sobre os homens desta cidade o seu rosto de piedade, cansado de esperar, desiludido na sua eterna esperança, acaba de afastar o olhar. Privados da luz de Deus, eis-nos por muito tempo nas trevas da peste!”

Nada melhor do que uma crise coletiva para revelar ao indivíduo acuado os valores não-individuais, a primazia do coletivo.



Um clássico...

Para mostrar que ele continua o mesmo. Ontem no Programa do Jô.


Sobre as baleias...

Eu tô pensando...

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Memória



Saudade imensa, mãe...

Amar o perdido deixa confundido este coração.
Nada pode o olvido contra o sem sentido apelo do Não.
As coisas tangíveis tornam-se insensíveis à palma da mão.
Mas as coisas findas, muito mais que lindas, essas ficarão...

Carlos Drumond de Andrade